“O ALCOÓLATRA – O MAIS DOENTE DOS HOMENS”

O ALCOÓLATRA – O MAIS DOENTE DOS HOMENS”

-Não me diga que eu não sou um alcoólatra

Por favor, não me diga que eu não sou um alcoólatra. Você põe em perigo a minha vida se o fizer. Se você me convencer a tomar um gole, “apenas unzinho”, eu poderia morrer por causa dele.

Estou escrevendo este artigo porque eu sou um alcoólatra, um dos cinco milhões neste país e amigos bem-intencionados continuam a me dizer que eu não sou. “Um alcoólatra? Não seja bobo! Você, não!”, eles dizem. “Oh, talvez você tenha bebido um pouco demais, mas você estava sob um bocado de tensão naquela hora. Isso já acabou agora. Vamos lá, cara – diga até onde eu viro”.

Já conheci alcoólatras, esforçando-se para eliminar o álcool de suas vidas, que vacilaram e que disseram “até onde virar”. Já vi a triste armadilha deste vicio se fechar sobre eles novamente. Já os vii morrer disto. A maioria dos alcoólatras morre disto.

– Os equilibristas da corda bamba

Isto, porque o alcoolismo é uma doença fatal, caso se permita seguir o seu curso. Ela pode ser retida caso a vítima pare de beber, mas não pode ser curada! Uma longa abstemia não faz diferença alguma. Um alcoólatra que não tocou em bebida durante vinte anos é tão alcoólatra quanto sempre havia sido. Dizer a tal pessoa que ela não tem uma doença incurável e fatal é absolutamente uma loucura – e quase sempre é exatamente o que a vítima quer ouvir.

Ninguém fica contente em ser alcoólatra. A maioria de nós que está fazendo um programa de recuperação – e nós representamos apenas uns patéticos 6 ou 7% dos cinco milhões vitimados – temo-nos esforçado para aceitar dolorosamente um fato nu e cru: nós somos FISICAMENTE DIFERENTES em nossa reação ao álcool. NÓS NÃO PODEMOS BEBER. Do reconhecimento constante desta realidade depende nossa felicidade, nossa sanidade e nossas vidas. Mas nós somos tais como equilibristas na corda bamba: um pequeno empurrão pode nos mandar voando lá para as profundezas.

Porque, então, são as pessoas bem-intencionadas culpadas, algumas vezes, de nos darem este empurrão?

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Em primeiro lugar, amigos que gostam da gente não querem que sejamos alcoólatras por causa da má repercussão que tal palavra ainda causa. A ciência médica finalmente rotulou o alcoolismo justamente como ele é: uma doença. Portanto, quando um amigo tenta lhe dizer que você não é um alcoólatra, ele pensa que está sendo gentil com você.

Em segundo lugar, muita gente ainda concebe uma visão fixa e estereotipada do que é um alcoólatra – um lixo humano caído na sarjeta ou um imprestável milionário convalescendo, numa boa, em Campos do Jordão. Se você não se enquadra em nenhuma destas duas categorias, eles acham impossível acreditar que você perdeu a sua tolerância ao álcool.

Em terceiro lugar, a admissão que é um alcoólatra perturba alguns de seus amigos porque é uma ameaça aos hábitos de beber de alguns deles mesmos. ” Se esse cara é um alcoólatra”, eles dizem a si mesmos com um certo desconforto, “eu, o que sou?”

Existe pouca lógica em tal reação. Somente um em quinze ou dezesseis bebedores se torna um alcoólatra. Mas eu tenho tido uma nítida impressão, em muitas ocasiões, de que a pessoa que me está assegurando, em voz alta, que eu não poderia ser um alcoólatra, estava verdadeiramente tentando assegurar-se a si próprio.

E, finalmente, os alcoólatras, muitas vezes, têm de encarar forte oposição por parte de parentes próximos, os quais pensam que admitir tal fato trará desgraça ou desaprovação para a família. Há pouco tempo, uma boa amiga minha morreu de alcoolismo. Com a idade de 43 anos, os médicos chegaram à conclusão de que suas deficiências físicas indicavam que ela era uma alcoólatra desde muitos anos. Ainda assim, seis meses antes dela morrer, o pai dela me disse impacientemente que ela não era uma alcoólatra e mencionou o nome de uma dúzia de mulheres que bebiam mais e se comportavam pior do que ela.

Todos os amigos e conhecidos dela também tinham lhe assegurado que ela não era uma alcoólatra. A maioria ainda pensa que ela morreu de um ataque do coração, uma mentira que os jornais fielmente reproduziram.

A única maneira pela qual o alcoólatra pode começar um programa de recuperação é através do reconhecimento da sua doença. Isto nunca é fácil, porque esta admissão, invariavelmente, carrega consigo uma tendência mortal de justificar, racionalizar e negar qualquer coisa que possa acarretar o fim da bebida. Acreditem-me, eu sei, eu mesmo passei por isto.

-Uma compreensão cruel

Há alguns anos, três bons amigos meus aparentavam ter problemas com a bebida; então eu obtive e li o livro “ABC sobre o alcoolismo” de Marty Mann, com a idéia de ajudá-los. Muitos anos depois, o meu próprio comportamento em relação ao álcool estava suficientemente anormal e deprimente para me fazer buscar novamente este livro. Eu o li de novo e li também “Apenas mais um” de James Lamb Free. Foi uma experiência trágica. Eu tentei freneticamente me esquivar. Busquei todas as maneiras de provar que eu não era um alcoólatra, mas a evidência era forte demais.

Que evidência? Bem, em um de seus estudos clássicos, o Dr E. M. Jellineck fez uma lista das características mostradas pela vítima do alcoolismo em três estágios sucessivos da doença. Eu descobri que muitas descrições eram aplicáveis ao meu próprio comportamento… Apagamentos, por exemplo. Estes são episódios que envolvem falta de memória, mas não devem ser confundidos com “desmaios”. Houve muitas ocasiões quando eu pude jogar cartas competentemente a noite inteira e não me lembrar ou lembrar muito pouco disto no dia seguinte. Uma vez eu guiei 120 milhas de San Francisco até minha casa, em Pebble Beach e acordei no dia seguinte não me lembrando de ter feito tal viagem.

– O Remorso do dia seguinte

Muitos outros sintomas assinalados pelo Dr Jellineck apareciam na minha atitude de bebedor, apesar de que, assim como muitos alcoólatras, eu normalmente conseguia escondê-los de meus amigos. Bebidas escondidas, evasivas sôbre os hábitos de beber, remorso excessivo no dia seguinte – os sinais estavam muito claros. Eu ainda estava anos de distância da sargeta, mas já estava à caminho. Não aparentava ser um alcoólatra.

Obviamente não agia como tal. Mas quando finalmente descrevi os meus sintomas a um médico, ele confirmou meu receio – eu era um deles!

Lembro-me muito bem da reação de meus amigos íntimos. Foi quase violenta: escárnio, negativas, zanga, provas infinitas de que eu não poderia ser um alcoólatra. Calmas e maravilhosas palavras para um homem que implora por uma bebida!

Bem-vinda justificativa para começar tudo de novo!

Eu sei que essas reações eram baseadas na ignorância – concepções falsas do que é um alcoólatra e como a doença se manifesta. Ninguém sabe tudo sobre o alcoolismo; até para os especialistas, alguns aspectos dele continuam a ser um mistério. Permitam tentar corrigir algumas concepções das mais erradas.

Para começar, por favor, não considere o alcoólatra uma criatura moralmente fraca. Na verdade, ele pode ter mais fôrça de vontade do que você. Mas ele é um doente – o mais enfermo dos homens.

Em seguida, não limite a imagem na sua mente do alcoólatra ser um lixo nos últimos estágios da doença. Aí está lixo na sargeta, perto da insanidade e da morte. Foi recentemente que ele se tornou um alcoólatra? Não teria sido há cinco anos, quando se tornou lavador de pratos?

Não teria sido há dez anos, quando a mulher dele pediu o divórcio? Não teria sido há quinze anos quando ele perdeu o emprêgo no banco? Não foi há vinte anos, quando ele começou a beber escondido para se certificar de que obtinha “a conta certa”? Não foi há vinte e cinco anos, quando ele sofreu os primeiros apagamentos? A ciência moderna sabe que ele se havia tornado um alcoólatra vinte e cinco anos atrás e que era tão alcoólatra então, quanto é agora.

Tente se lembrar que o alcoolismo é uma doença como um iceberg – os sintomas estão, na sua maior parte escondidos, logo no começo. Na realidade, durante os primeiros cinco ou dez anos, os alcoólatras geralmente tomam muito cuidado em parecer bebedores sociais normais. È o bêbado da pesada ou um porrista eventual o que se comporta mal.

O alcoólatra aparentemente fica sóbrio, mas é ele que cai fora primeiro de uma festa de coquetéis, muitas vezes com o pretexto de “ter trabalho para fazer”, mas vai para casa ou para um bar longe do caminho e satifaz a sua cruel necessidade compulsória.

Não se deixe levar pelas aparências. A minha mulher Virgínia, que se recuperou do alcoolismo quando tinha 29 anos, é uma mulher jovem e enérgica. As pessoas quando a conhecem e sabem da sua doença, invariavelmente protestam: “Você não pode ser uma alcoólatra; parece tão saudável quanto uma criança!” Ela é uma alcoólatra – e parece tão jovem quanto qualquer vítima da doença que muito cedo tenha sido abençoada por uma recuperação.

ALCOÒLICOS ANÔNIMOS deixa as estatísticas a cargo das autoridades médicas e dos grupos de pesquisa. Mas é geralmenmte um fato aceito, que no começo, 24 anos atrás, a média de idade dos membros AAs era 50 anos ou mais, porque somente os fins-de-linha eram considerados alcoólatras. Hoje, graças principalmente ao notável trabalho educacional do Conselho Nacional do Alcoolismo, pessoas mais jovens estão se juntando a vários programas de recuperação. A maioria dos recém-chegados ao A.A. hoje em dia, varia desde adolescentes a pessoas de 20, 30 ou 40 anos. Eles estão reconhecendo a doença mais cedo.

– A linha invisível

Isto me leva a uma última recomendação. Algumas vezes, ao jovem alcoólatra recuperado é dito que ele deve ter tido um caso ligeiro, uma vez que o caso não progrediu muito e que ele certamente deve ser capaz de tomar uma cervejinha ou um vinhozinho. Em primeiro lugar, não existe um “caso ligeiro”. O alcoólatra que atravessa a linha invisível é – e sempre será – um alcoólatra toda a sua vida. E não existe ” o alcoólatra parcial”.

Ou você é ou não é. Em segundo lugar, não importa se a bebida fatal é vinho, cerveja ou uísque Burbon 100º – ou até mesmo um xarope à base de álcool. É o alcool que causa dano, em qualquer forma.

Portanto, tente nos ajudar. Recomende àqueles que podem ser bebedores-problema que escrevam ao Conselho Nacional do Alcoolismo ou para um dos seus 55 Comitês das Comunidades em todo o país, ou chame o A.A. Ou leia “O ABC sobre o alcoolismo”, de Marty Mann, ou “Apenas mais um”, de James Lamb Free. Mas não lhes diga que eles não são alcoólatras. Se você estiver errado e eles acreditarem, eles podem morrer.

 

Transcrito do Folheto impresso em Edição Comemorativa dos 40 Anos de A.A. no Brasil. SETEMBRO 1987

 

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